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Mães da Itália na passarelle do BFI: Festival de Londres

Figlia mia

Daqui a uma semana, Londres tem uma visita marcada à Sardenha, de boleia na exibição de Figlia mia, no seu BFI – London Film Festival: o “filmaço” de Laura Bispuri será projetado no dia 18, abrindo espaço para uma nova frente de mulheres cineastas egressas da pátria de Lina Wertmüller.

Antes de se embrenhar pelas veredas do melodrama, deixando a bússola do racionalismo para trás, Figlia mia sequestra a atenção e o fôlego do espectador por caminhos geográficos: a paisagem da Sardenha toma conta da ecrã a partir de uma mirada quase neorrealista. Na direção, a romana Laura Bispuri busca os invisíveis, os anónimos, o povo com o colorido suarento e esbaforido do dia a dia - parece a delicadeza de Vittorio De Sica em Umberto D. (1952). Reconhecido o terreno, começa a ficção, que trilha um terreno bíblico. Evoca-se o mito de Salomão: o rei foi consultado por duas senhoras, que reclamavam o direito de ser mãe de uma criança, e ele sugeriu que o bebé fosse cortado ao meio, a fim de ficar um pedaço para cada uma. Pelo julgamento de Salomão, a mulher que se recusasse a ferir o bebé seria a mãe.

Esta é a premissa que a realizadora de Vergine giurata (2015) resgata (e revive) uma dramaturgia capaz de evitar obviedades, aliada a um refinamento visual arrebatador, que deve ser creditado à fotografia de Vladan Radovic. A Sardenha deste longa-metragem - indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, em fevereiro - é um lugar de pesca e de criação de cavalos, lar de um povo alheio às transformações culturais das capitais ao seu redor. Um povo que poderia ser chamado de rústico, mas que é, apenas, aferrado às suas raízes, um pouco como a aldeia de pescadores de La terra trema (Luchino Viconti, 1948). O filme de Bispuri não é preso a amarras documentais, nem depende de não-atores. Pelo contrário, Figlia mia é uma obra que serve de apoteose para grandes atrizes (Valeria Golino, Alba Rohrwacher) afirmando o traço autoral da cineasta: apresentar mulheres fortes em ambientes tradicionalmente dominados por “grosseirões”.

Figlia mia

Há uma sequência catártica em que a realizadora expõe todo o seu ferramental técnico e poético: Alba e a pequena Sara Casu, de 11 anos, soltam a voz ao som de Questo amore non si tocca, hit da canzone italiana gravado por Gioanni Bella. As duas cantam como se brincassem ao karaoke, diluindo as fronteiras da idade e da hierarquia familiar que as separam. Alba é a alcoólatra Angélica, uma mulher afeita ao prazer. Sara é Vittoria, uma menina de 9 anos que tem duas mães, uma biológica, a outra, de criação: Angélica de um lado; e a bem comportada Tina (vivida por Valeria Golino) do outro. Ambas as adultas disputam, à sua maneira, o coração da menina, numa história que revive os saberes de Salomão a fim de abrir uma discussão (necessária) sobre conciliação. O seu verso: renunciar é, também, um modo de amar.

Bispuri é a cereja de um bolo de múltiplos sabores. Londres vive sua festa cinéfila anual, o BFI – London Film Festival, hoje na 62ª edição, em dias de vasta oferta cultural no Reino Unido, nas mais variadas latitudes. Tem Jonathan Pryce no teatro, protagonizando o fenómeno The Height Of The Storm; há uma encenação de Magic Mike em forma de musical; uma exposição de desenhos e solfejos de Bob Dylan na Halcyon Gallery; Ian McKellen encarnando Rei Lear no Duke of York’s Theatre; tem Mr. Bean, o hilariante Rowan Atikinson, no circuito popular, de novo na franquia Johnny English. Diante de concorrência tão pesada, o evento coordenado por Amanda Nevill e Tricia Tuttle apostou num repertório pop, começando pela escolha de Widows (Viuvas), thriller de assalto com Viola Davis, de forma a abrir a programação. Haverá animação (Mirai, de Mamoru Hosoda), terror (Mandy, com Nicolas Cage, e Suspiria, com Dakota Johnson) e ROMA, premiado com o Leão de Ouro em Veneza, a coroação de uma porção autoral de Originais Netflix a partir deste Amarcord P&B de Alfonso Cuarón.

Há uma armada italiana em campo

De tudo o que já se viu até agora no BFI - LFF, a longa-metragem de recheio estético mais delicioso veio da Espanha: El Reino, de Rodrigo Sorogoyen. É um pleito contra a corrupção, centrado nas agruras de um político cansado de “roubalheira”, que decide investigar esquemas ilegais na sua pátria. À frente do filme, no papel do político Manuel López-Vidal está um dos atuais atore-fetiche de Pedro Almodóvar: Antonio de la Torre. Atualmente nos cinemas brasileiros na pele do líder uruguaio Pepe Mujica em La noche de 12 años. No filme de culto do Uruguai, o personagem de La Torre é um exemplo de idealismo. Aqui, em El Reino, ele mexe com o brio dos ingleses ao encarnar dilemas éticos de quem se encontra na aristocracia.

The Ballad of Buster Scruggs

Sexta é dia dos irmãos Coen na capital inglesa, com o faroeste musical de seis episódios The Ballad of Buster Scruggs, que lhes rendeu prémio de Melhor Argumento no Festival de Veneza, onde esteve longe de ser considerado uma unanimidade. Donos de um punhado de Oscars, de uma Palma de Ouro e de uma leva de troféus cinéfilos, com uma carreira recheada de cultos como No Country For Old Men (2007), Fargo (1996) e Barton Fink (1991), os irmãos Joel e Ethan sempre entram num festival com uma aura de “vencedores”. Não foi assim em Veneza com The Ballad of Buster Scruggs, que chegou ao fim gerando um clima de frustração no Lido, mesmo com boas doses de comédia. Embora o arranque solte gargalhadas, esta releitura fanfarrona do Velho Oeste - idealizada para a Netflix com um formato em episódios – fica bem aquém da fina ironia da dupla. O objetivo aqui é mais explorar legados de desmitificação das cartilhas clássicas do Oeste do que fazer um “bang bang” à altura de True Grit, da autoria dos próprios e lançado nos cinemas em 2010.

A atração mais esperada deste fim de semana de clima ameno em Londres é o documentário de tom incendiário, Fahrenheit 11/9. Nele, Michael Moore (Bowling for Columbine) detona Donald Trump e a sua administração na Casa Branca. Passa no domingo.

Ao largo da suas projeções especiais, hors-concours, o BFI projetou, na quinta, a largada para a sua mostra competitiva, com a projeção de uma obra inglesa: Happy New Year, Colin Burstead, no qual o realizador Ben Wheatley fala de um conflito familiar entre irmãos. Concorrem ainda este ano, as ficções Pájaros de Verano, de Cristiana Gallego e Ciro Guerra (Colómbia); Destroyer, de Karyn Kusama (EUA); Lazzaro Felice, de Alice Rohrwacher (Itália); In Fabric, de Peter Strickland (Reino Unido); Shadow, do mestre Zhang Yimou (China); Joy, de Sudabeh Mortezai (Austria); Tarde para morir joven, de Dominga Sotomayor (do Chile, mas produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira); Sunset, de László Nemes (Hungria); e o badalado The Old Man & The Gun, de David Lowery (EUA), com Robert Redford, que havia sugerido reforma, como seu protagonista.

The Old Man & The Gun

O Brasil não pode se queixar de espaço. Para o cinema brasileiro o BFI reservou espaço para filmes como Um Corpo Feminino, de Thais Fernandes; O Clube Dos Canibais, de Guto Parente; Morto Não Fala, de Dennison Ramalho; Chuva É Cantoria Na Aldeia Dos Mortos, de Renée Nada Messora e João Salaviza, uma coprodução com Portugal; This Is Bate Bola, rodado por Neirin Jones e Ben Holman nas favelas do Rio de Janeiro; e Sueño Florianópolis, de Ana Katz, produzido por argentinos e brasileiros, tendo Marco Ricca no elenco. Vencedor da Semana da Crítica de Cannes, Diamantino, que tem sangue brasileiro em seu organismo português, vai também tentar a sua sorte na capital inglesa.

Para encerrar suas atividades, o BFI exibe, no dia 21, o esperado Stan & Ollie, com John C. Reilly e Steve Coogan desempenhando O Bucha e o Estica, sob a direção de Jon S. Baird, numa comédia dramática baseada nas memórias da dupla que levou gerações às gargalhadas entre o fim dos anos 1920 e 1951. É uma aposta ao Oscar.



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