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«Tomb Raider» por Hugo Gomes

O que está em causa aqui não é comparar nem sequer declarar qual foi a melhor personificação: Angelina Jolie ou Alicia Vikander? Até porque ambas, em paralelo com o próprio videojogo, representam duas doutrinas diferentes que se instalam na industria. Recordamos que Tomb Raider [o videojogo] surgiu entre nós em 1996, um sucesso estrondoso das consolas que gerou igualmente bem-sucedidas sequelas. Com o passar dos anos, muito se debateu na figura da heroína Lara Croft, desde os parâmetros sexualizados que representava no universo do videojogo, questões que levaram a uma lavagem em 2013.

No cinema, quase como em paralelo com as tendências da sua matéria-prima, Angelina Jolie a reencarnar o ícone quase como uma cosplay, evidenciado a preocupação do sex appeal acima da natureza aventureira à lá Indiana Jones. O sucesso moderado de 2001 indiciou uma sequela em 2003, um par de obras que encaminhou a personagem do videojogo a diluir-se com o imaginário das adaptações cinematográficas. Mas muito mudou desde esses filmes e esta nova versão, ou como querem publicitar, reinvenção, passa pela linguagem do cinema entretenimento e pela representação da Mulher em solo cinematográfico.

Tomb Raider foi “vitima” dessa mesma evolução, a começar pela “(des)sexuallização” e com isso a criação de uma faceta frágil e humana, que se pode clamar como slogan pré-fabricado. A heroína omnisciente e imaculada, impulsora constante das fantasias eróticas de muita da audiência masculina, é agora revelada como uma discípula entre ensinamentos para a derradeira emancipação. Mas a escolha de Vikander para o papel da mais famosa das mulheres dos videojogos é somente a ponta do icebergue para este inicio de um possível franchise, visto que foram importar Roar Uthaug, o aclamado “Michael Bay norueguês”, para o cargo de realizador.

Não se trata da habitual rotina de corromper uma revelação independente perante a megalomania da industria de Hollywood, pois Uthaug não pertence a essa classe. Aliás, blockbuster, mais que um termo é um universo reconhecível, e este é o seu nome do meio em terras norueguesas. A sua transladação revela-se somente linguística. Tomb Raider mantém a sua garra como fabricante de grande produções, expondo os códigos de entretenimento apurados neste tipo de cinema, um senso de aventura aguçado que o evita diversas vezes do estapafúrdio que se poderia esperar.

Sim, a competência técnica em conjugação com a devoção, sobretudo física, de Alicia Vikander, ou de um vilão enraivecido (Walton Goggins) a servir de suplemento, são elementos que preenchem um produto genérico - de enredo previsivelmente bocejante - que mesmo assim faz inveja a muitas das “infames adaptações de videojogos”.

Mas fora o entretenimento passageiro sem muito para dizer e enquanto obra única, é curioso olhar para Tomb Raider como um modelo da adaptabilidade de Hollywood aos novos tempos.  

Hugo Gomes



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